"As cores são minha obsessão, meu divertimento e meu tormento de todos os dias" (Monet)

19/05/2010

A Força do Abstrato

Abstrato Díptico - Técnica mista em painéis
(clique na foto)


Algumas pessoas não gostam de expressões artísticas abstratas, alegando que são muito difíceis de entender. A música, no entanto, embora seja uma arte essencialmente abstrata, não precisa reproduzir o som de uma tempestade ou do vento nas árvores para ser apreciada. Da mesma maneira, uma pintura pode emocionar-nos sem representar figurativamente um objeto ou lugar.
Você não precisa comunicar fatos visuais, mas sim expressar sua resposta pessoal a certo sentimento ou emoção que um tema lhe causou. Pessoalmente acho fascinante que um artista sinta o desejo de dividir isso com outras pessoas em algum momento de sua carreira.

É frequente a tentativa de compreender ou apreciar obras de arte recorrendo a análises conceituais, isto é, apreciando-as em termos de representação de ideias. No entanto uma pintura pode encontrar seu significado maior na própria composição de formas cores e tons.
Embora a grande maioria dos abstracionistas prefiram realizar uma série de estudos antes de iniciar uma obra, vale dizer que pintar pode ser também um ato de descoberta e, nessas condições, o quadro não obedeceria a uma estrutura prévia, vindo a constituir o registro de sua procura, ao longo da execução. Até mesmo o assunto se definiria no ato de pintar, como se fosse uma soma de hesitações e certezas, remetendo a um clima de sonho – que dispensa referências ao mundo real. Nesse processo, a intuição exerce papel central. Formas e cores nascem da memória, do ideário pessoal do artista.

Evidente que só após anos de experiências e algum conhecimento é que esse processo se torna natural e  automático na sintonização mãos e mente do artista. Mas em qualquer estágio do aprendizado sempre valerá à pena tentar. Verá que é possível constituir na pintura um organismo vivo e autônomo, em vez de um veículo para conceituações. Além do mais, a falta de informação convida o observador a entrar na pintura, e a imaginação a entrar no jogo, exigindo mais do que o simples olhar.

A seguir, tentarei passar algumas informações que podem ser preciosas a quem deseja “navegar” no mundo do abstrato. Não se tratam, porém, de regras absolutas e científicas. Antes, são mutáveis e o artista pode e deve manipulá-las a ponto de fazer com que cor, tom e forma “conspirem” juntos a seu favor; ou até mesmo “discordem” igualmente a seu favor.

Experimente
, ouse, não armazene idéias.

• Uma composição com cores complementares puras colocadas lado a lado expressa um efeito dramático e inquietante.
• Figuras humanas meio “desmanchadas” num fundo abstrato, ambas em cores frias, sugerem um clima enigmático.
• Marcas que atravessam a tela horizontalmente na parte baixa com cores pouco vibrantes, num fundo dominado por tons pastéis e acinzentado, transmitem sensação de paz, tranquilidade.
• Uma extensa área de cor bastante clara e neutra, começando de baixo para cima e finalizando com “faixas” mais coloridas, exprime vastidão.
• Faixas que se estreitam à medida que emergem para um ponto imaginário “dentro da tela”, exprime imensidão, cosmos, infinito. Leva o observador a refletir sobre o universo.
• Alguns triângulos em cores frias e “controladas” sobrepostos, mas sem a base, e com seu ângulo mais estreito e “pontudo” apontando para o alto, num fundo escuro, reflete indeterminação, ambiguidade.
• Pinceladas que se “revelam” sobrepostas umas às outras, em cores análogas (que aparecem lado a lado no disco cromático) causando um efeito cromático num fundo contrastante, porém sem exagero, transmite a emoção do artista no ato de pintar.
• Formas em círculos exprimem serenidade.
• Linhas retas na horizontal e vertical, e que se cruzam deslocadas do centro da tela, sugere domesticidade.
• Formas geométricas como triângulos, retângulos e quadrados sobrepostos com variações de escala, sugerem cenas urbanas.
• Triângulo em forma de pirâmide, solitário no centro da tela com a “ponta” voltada para o alto, exprime espiritualidade.
• Uma “mancha” grande e outra idêntica, mas intensamente menor colocadas lado a lado, porém com a menor recuada para o plano de fundo, sugere distância, espaço, lugar longínquo.
• Composições com marcas horizontais ou verticais no centro que divide a tela ao meio exprimem monotonia, rotina.
• Se quiser reduzir o impacto: cor do fundo intimamente relacionada com a cor do motivo. Se quiser destacar o motivo: fundo neutro.
• Fundo e motivo em cores quentes, resulta num forte dinamismo.
• Formas curvas, delicadas e fluídas que se completam mutuamente, conferem unidade e harmonia. Assim também como formas idênticas ou semelhantes cuidadosamente distribuídas na tela, ou ainda cores que se repetem aqui e ali.
• Linhas ou filas de elementos repetitivos e assimétricos transmitem ritmo.
• Marcas fortes em cores vibrantes, na transversal, num fundo contrastante, transmitem movimento.
• Imagens “cortadas” “incompletas” transmitem movimento constante.
• Marcas que parecem emergir mais ou menos do centro da tela para fora dela, em cores quentes e análogas lado a lado, transmite impacto, explosão.
• Cores com valores tonais semelhantes (não idênticos) evocam calma.
• Marcas curvas e pendentes expressam melancolia.
• Figuras ou imagens grandes, que chegam mesmo a transpassar os limites da tela em alguns pontos exprimem sensação de liberdade.
• Marcas que seguem retas de cima para baixo, na transversal da tela, e repentinamente se “quebram” em direção ao alto, exprimem força.
• Um fundo abstrato e quente com “veios” em cores frias, como os azuis ou marrons “apagados” exprime a força da natureza.
• Insinue o oceano em tons de azuis profundos, desprovido da linha do horizonte para criar a sensação de proximidade, intimidade com a natureza. Acrescente algumas cores “absurdas”, como vermelho, por exemplo, em alguns pontos para reforçar a idéia de mistério no fundo do mar.
• Introduzir elementos de “surpresa”, como sugerir uma mão numa das zonas críticas (cantos) da tela, por exemplo, causa uma forte sensação de tensão.
• “Emoldurar” ou contornar uma parte do motivo enfatiza e ao mesmo tempo intriga.
• Quando desejar destacar ao máximo uma forma, imagem ou figura, loque-a à uma seção áurea (zona forte) e elimine qualquer fundo ou cenário (vinheta) , a fim de transmitir intensa sugestão.
• Marcas de formas criativas em cores vibrantes, com pinceladas fluídas e indefinidas, construídas num fundo quase branco, exprime fantasia.
• Formas apenas sugeridas, como uma cidade cinzenta ao longe e próximo à linha do horizonte, contrastando com um primeiro plano “rico”, brilhante, contra um fundo claro e frio, transmite mistério.
Obs.: Apenas insinue detalhes vagos.
• Quando sentir que um trabalho ficou “sufocante” e “saturado”, alivie-o adicionando toques da cor do fundo entre o motivo para criar áreas de “ventilação”.
• Se você eleger um par de cores para uma composição, que sejam marcadamente diferentes nos matizes, e ir clareando ambas, ou apenas uma delas, até atingirem o mesmo valor tonal, terá um par de cores discordantes. Composições desta natureza causam uma forte sensação de vibração. Isso porque nossos olhos “sabem” que uma das cores deve ocupar um lugar mais baixo na escala tonal, e eles ficam constantemente tentando fazer isso, resultando que as duas cores pareçam “vibrar”.

A PINTURA PODE “TRANSMITIR” SONS OU SENSAÇÕES CLIMÁTICAS:

Como disse no início a respeito da música, você não precisa pintar cenas reais para transmitir essas sensações. No abstrato, com algum conhecimento de cor e forma, e principalmente como esses elementos são direcionados e organizados dentro da tela, obtêm-se excelente resultado. Mas não basta só isso. Há de se tomar devida atenção em combiná-los mutuamente a fim de que “trabalhem” juntos.
A seguir, mostrarei alguns exemplos:

• Marcas pequenas e solitárias, em cores suaves, num fundo amplo, provocam sensação de silêncio.
• Dezenas, ou até centenas de marcas curtas, fragmentadas e “rítmicas”, em cores vivas direcionadas a várias direções, num fundo pálido, transmite a sensação de barulho, festividade, alegria. Faça os olhos do observador "passear" por toda a composição construindo um "caminho" com cores quentes que servirá de guia, obrigando-o a acompanhar o movimento da pintura.
• Traçados finos e transparentes, construídos de forma vibrante, um tanto na transversal contra um fundo com pontos iluminados, podem transmitir a sensação do barulho de uma tempestade.
• Se um trabalho estiver frio, insípido, acrescente nele uma pequena área de sua cor complementar para transmitir "calor".
• Cores quentes como os vermelhos, laranjas e amarelos num fundo alaranjado pálido, transmite calor opressivo e sufocante. Insinue rochedos, dunas, áreas desérticas. Acrescente toques de branco quase puro e rosa pálido se desejar transmitir a sensação de relativo frescor. Faça a mesma composição, agora em tons acinzentados para transmitir a sensação do frio em pleno inverno, ou em cores brilhantes da primavera, como os azuis celúreo e turquesa.


ABSTRATOS “ACIDENTAIS”:

• Constitui em colocar tintas de várias cores abundantemente na tela, diluídas ou não, e depois comprimir com uma folha de papel celofane, ou de seda, ligeiramente amassado. Mover as mãos e dedos sobre o papel conforme a sua sensibilidade. Retirar a folha em seguida, ou no dia seguinte, ou ainda depois que a tinta estiver seca, dependendo do resultado que se deseja obter (estas duas últimas hipóteses só são permitidas para papel celofane). Depois, avaliar o padrão, as formas e o movimento que se formou acidentalmente e completar a composição livremente.
• Coloque tinta aguada, bem diluída (com solvente se for óleo ou água se for acrílica) aleatoriamente, e depois incline um pouco a tela para que escorra ao acaso. Essa técnica pode resultar em formas enigmáticas muito interessantes, possibilitando-nos construir um belo abstrato.

ABSTRATOS COM COLAGENS:

• Você pode montar belíssimos abstratos recorrendo ao método da colagem, utilizando diversos materiais, como cascas de árvores, pequenas pedras, vagem com sementes, fatias de frutas desidratadas, etc. Esse tipo de composição enfoca o desejo do artista em reverenciar a natureza, ao homenageá-la numa linguagem poética.
• Ainda no método da colagem, recorte e cole páginas de jornal ou capas de revistas nas suas composições se desejarem registrar uma época, um marco no tempo, ou um acontecimento. (impermeabilize toda a área da colagem depois de alguns dias, mas onde houver tinta à óleo, envernize somente após seis meses).

ABSTRATO PELO CORTE NO ENQUADRAMENTO:

Consiste em “apanhar” uma cena ou objeto, e ir realizando cortes drásticos no enquadramento até atingir uma área relativamente pequena, aquela que mais lhe chamou a atenção. Pode ser apenas o miolo de uma flor, ou o núcleo de uma fogueira, com seus carvões de um preto azulado contrastando com os vermelhos e alaranjados quentes do fogo.
Esse método resulta num abstrato definitivamente empolgante!
Isso se dá porque o nosso cérebro só reconhece as imagens pela relatividade, ou seja, relacionando-as com todos os outros elementos que há ao redor. Eliminando esses elementos, resta pouca ou nenhuma informação ao observador. Ele não reconhece a imagem de imediato, porém há algo de familiar registrado em sua memória: isso faz com que a cena o intrigue, e consequentemente, retendo por mais tempo sua atenção.
Você pode intitular o quadro se desejar revelar a cena, ou apenas “dar uma pista” ao observador, como fez certo artista ao se deparar com as encantadoras curvas de uma taça de champanhe no seu atelier. Então, buscando retratar apenas essa particularidade da taça, ele cortou ao máximo o enquadramento “jogando-a” para um dos limites da tela, constituindo um belíssimo abstrato. O título “Borbulhante” forneceu uma pista ao observador obrigando-o a refletir sobre o tema, e assim, desvendar a mensagem.
Vale lembrar que se a mesma taça fosse simplesmente um elemento de uma composição dentro de um contexto, dificilmente o observador atentaria a essas curvas delicadas e harmoniosas que tanto encantaram o artista.

SEMI-ABSTRATO:

Trata-se dum método bastante interessante à medida que o artista fornece ao observador algumas informações sobre a composição.
Ao compor seu semi-abstrato, lembre-se sempre que somente poucas informações devem ser passadas e não todas em absoluto. Para tanto, você deve definir alguns pontos e deixar outros mais indefinidos, “desmanchados” com o fundo, a fim de criar ilusões e interpretações variadas.

Obs
.:
Dentro dessa modalidade, também estão aquelas que compõem “cenas absurdas” de surrealismo, como cavalos galopando em plena superfície da água, por exemplo. Esse tipo de composição geralmente retrata o que se passa no inconsciente do artista, nos seus sonhos e devaneios.
De qualquer maneira, seja qual for a cena, absurda ou não, sempre deve seguir uma linha de “confusão” de imagens, e simplificação de dados informativos.

FIGURATIVA ESTILIZADA:

Como o próprio nome diz, trata-se de uma modalidade relacionada inteiramente a uma figura, humana ou não. Seguindo a mesma linha de raciocínio dos semi-abstratos, a figura quase sempre aparece completamente, ou parcialmente “misturada” ao cenário de fundo como se fizesse parte integrante dele, não um ser autônomo. Mas deve-se tomar todo o cuidado de não cair no erro de detalhar demais a figura, como uma representação fiel de um retrato. Antes, devemos destacar alguns pontos, deixar vagos outros, ou até mesmo eliminá-los por completo se desejarmos causar um forte impacto visual e ao mesmo tempo intrigante.
Trabalhar os contrastes de cores, luzes e sobras de forma exagerada, também pode ser uma forma interessante de se elaborar uma pintura figurativa estilizada. Isso porque nada nela deve ser real e sim parte de algo muito maior, que são os nossos sonhos. E o potencial imaginário de cada um de nós.


6 comentários:

  1. Olá Suely,
    Obrigada por seguir o "Quintana é para sempre" e pelo comentário tão gentil.
    Com estas suas dicas de pintura, dá até vontade de pintar.
    Meu e-mail: estelasiq@yahoo.com.br
    Bjs.
    Estela

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  2. Sueli:

    Li tudo!! Comecei de cima pra baixo e vim parar aqui novamente. A tua explicação sobre as cores, mostrando inclusive a cor em si, o ocre, carmim, o siena, etc, não poderia ser mais didático! E necessário. Muitas vezes vemos um traçado até bonito, mas com uma mistura de cores que não combinam entre si. Mas fica por gosto do artista... e desgosto para outros. Então ficamos naquela: o artista fez a obra para ele ou para ser gostada, entendida e interagir com todos? Uns acham que tudo é arte, e aí é o ponto que acho que ela perde seu valor, pois para mim, nem tudo é arte. Não discuto gosto, mas um pouco de bom senso temos de ter, não só para fazer arte como para consumi-la. Mas já cheguei à conclusão que jamais vamos chegar a um consenso sobre o que seja arte.

    Tuas observações quanto ao uso do branco, na Paleta, não tem errada.
    Pulando meu texto -, sobre o que é arte, e te agradecendo muito pela tua visão e comentário também deixado no meu blog -, dou continuidade ao que achei de extrema necessidade quando vamos começar uma obra. E fizeste com toda a propriedade que te cabe. É o assunto sobre a ‘FORÇA DO ABSTRATO’. Achei sensacional tua explicação, este teu texto é para ser guardado, estudado e revirado por todos aqueles que colocam diante de si, uma tela branca, tintas e pincéis.

    Beleza, amiga. Mais didático, impossível.
    Beijos mil

    Tais Luso

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  3. Olá Sueli!
    muito obrigada pela sua visita e por ter ficado seguidora.
    Também já andei por aqui e vi que tem obras muito bonitas. Também todos os ensinamentos que coloca são de grande utilidade. Obrigada pela partilha!
    Beijinhos e volte sempre

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  4. Sueli... que linda esta obra!! E o templante, nota 10!

    beijos, amiga.
    tais luso

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  5. Boa Noite Sueli,
    Por sorte te encontrei na internet, adorei teu blog, é uma verdadeira aula de pintura. Notei que andas afastada do blog.Vamos continuar com esta história linda e verdadeiro exemplo de vida.Vou te seguir sempre.Tb tenho um blog:harmoniaumjeitodeser.blogspot.com.Veja! Um abraço grande e voltarei. Socorrinha

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  6. sempre apreciei pinturas abstratas por eu considerar q elas se alteram de acordo com o meu ânimo.De qulauqer jeito eu tentei pintar alguns quadros com os dedos depois q vi a exposição do grande Andre Cerino...cheguei a postar alguns quadros no meu blog...se quiser dar uma olhada lá depois, apesar de a maioria ser poesia é
    valvuladeescapeexistencial.blogspot.com.br

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A todos meus agradecimentos e meu carinho!

Sueli Gallacci