"As cores são minha obsessão, meu divertimento e meu tormento de todos os dias" (Monet)

17/07/2010

Gosto não se discute... infelizmente!

(aquarelado em acrílica e pastel seco em painel)

 


Houve uma época que, de cada cinco trabalhos que eu produzia, três eram de nus. Fiquei conhecida como "a pintora de nus", tatos eram os quadros que eu pintei com esse tema. Ainda hoje toda vez que recebo uma encomenda para pintar um nu, fico muito feliz, pois sei que terei um prazer enorme em fazê-lo. Mas não foi bem assim com esse da foto.

A começar pelo tempo que eu tinha para elaborá-lo: apenas três dias! Uma aluna me apresentou à uma mulher que iria inaugurar uma clínica de estética com um coquetel muito elegante naquela semana, e nada mais justo que estivesse tudo pronto para o dia. Ela própria (se achando a entendida do assunto) estava cuidando da decoração: talvez por medida de economia não contratou um decorador.

Ficou claro que ela só fecharia negocio comigo se eu fosse capaz de entregar a encomenda no prazo. Eu até concordo que os quadros são os últimos itens a serem inclusos numa decoração, mas deixar para encomendá-los na última hora não me parece uma boa idéia.

Gosto de pintar por encomenda, pois não corro o risco de ficar com trabalhos encalhados em galerias de artes por meses, ou até anos.

Sempre faço vários estudos preliminares antes de começar a pintura propriamente dita; começo elaborando vários desenhos da modelo, e foi aí que surgiu o maior problema: eu não tinha uma modelo!

Sou péssima desenhista de memória, sou igual a São Tomé, tenho que ver prá crer, se não, pouca coisa que presta sai da minha cabeça.

Engana-se quem pensa que um “tracinho meio tortinho” aqui e alí não vai fazer a menor diferença, mas, faz, e muito! Principalmente na anatomia humana: um vacilo e perdemos toda a essência do movimento da figura. Não estamos retratando uma natureza morta, estática, sem personalidade de postura.

Anda cada vez mais difícil arranjar modelos que topem pousar nuas, só pagando muito bem e nem sempre compensa. Já escrevi aqui no blog que minhas filhas não têm mais a menor paciência em posar pra mim, lembram-se?... E também não havia tempo para convencê-las, visto que a mais velha mora longe daqui, e a caçula só quer saber de estudar para prestar concurso público e não pensa mais em nada. Também não poderia abordar uma mulher estranha na rua e perguntar: “olha, vc não quer ir lá em casa e tirar a roupa pra mim?” – não fica nem bem, né, mesmo porque não jogo neste time... não mesmo! rssss

Bem, decidi que tinha que ser na raça mesmo, confiar na memória e simplificar ao máximo possível. Quando terminei, fiquei orgulhosa de mim mesma ao ver que o desenho saiu melhor do que eu esperava.

Na hora da pintura, decidi pelo monocromático em sépia, visto que o painel estava previsto para ser dependurado logo à entrada da recepção, numa parede com textura em tom de verde oliva apagado. Escrevi “estava previsto” porque ele nunca esteve lá: logo saberão a razão.

Uma vez satisfeita com o desenho, comecei a pintar e pretendia pintá-lo todo, mas quando cheguei nesta fase, parei e olhei: eu simplesmente adorei vê-lo assim, neste estágio. No meu entender, não “cabia” mais nenhum acréscimo que viesse a desvalorizá-lo, tanto que nem assinei na frente, só atrás do painel.

Minha mente começou a divagar; comecei a imaginar as bailarinas inacabadas de Degas, como elas são lindas, perfeitas, e nos transmitem uma sensação de “continuidade” do artista. É como se ele, Degas, pudesse voltar a qualquer momento e terminá-las. Creio que foi essa mensagem que ele desejou passar para o observador.

Mas, fantasias à parte, “dei uma de Degas” e resolvi dar por acabado meu trabalho, e, é lógico, não via a hora de entregar a minha “obra prima”; estava vaidosa do meu feito. Quando cheguei na dita cuja da clínica de estética, totalmente dentro do meu prazo, fui recebida pela fulana da encomenda. A clínica ainda estava em obras, e ela, toda atarefada, mal me olhou na cara, foi logo olhando para o painel em minhas mãos e disse: “tá ficando ótimo... quando pretende entregar? – e depois notando minha cara de interrogação, perguntou: “você vai acabar de pintar, não vai?”
- Ah! Sim, claro, vou acabar de pintar – disse, eu – e não vou esquecer nem a celulite!

Dizendo isto, girei nos calcanhares e nunca mais voltei lá. Levei comigo meu painel, claro!

16 comentários:

  1. As pessoas quando não entendem algo, não deveriam ter vergonha ou receio de perguntar. A moça , com a suposta sabedoria e conhecimento de arte, acabou perdendo uma obra de magnífica beleza. E olhe que eu sou leigo, mas achei, divina. Abraços, Sueli. Paz e bem.

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  2. O dever: gostar daquilo que prescrevemos a nós próprios ...

    Abraço.

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  3. Pois é... Deixou de ficar com uma bela obra.

    Su, existem muitas pessoas que querem uma obra de arte para combinar com a cortina ou o sofá. É aquela coisa com cabeça, tronco e membros perfeitos. Aí seria o caso de perguntares sobre o seu gosto...

    Obra de arte é como literatura e música: a gente vai aprimorando o gosto... E não adianta querer que alguém, do dia para a noite, tenha um gosto requintado ou comece a ouvir música clássica ou a ler bons livros. É uma questão de aprendizado, refinar o gosto. E isso leva tempo e tem outro fator: precisamos querer!

    Achei esta tua obra linda, não gosto de nada que chegue a insinuar vulgaridade. E que contorno fantástico!

    Beijos
    Tais luso

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  4. Minha querida, sabe que quando vi vi sua obra e comecei a ler: "De cada cinco trabalhos que eu produzo, três são de nus" já logo imaginei essa sua arte, deitada, em preto e branco, na parede do meu quarto. Que coisa linda!

    Infelizmente há pessoas que não só não entendem de arte como não tem respeito algum pelo trabalho dos outros.

    Vc ganhou uma linda pintura: a sua mesma!!! E superou algo que vc achava que não conseguiria (pintou sem um modelo).

    Incrível!!!
    Parabéns!!!
    Beijo grande

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  5. Sueli! Que história é essa?? Não sei se é para rir ou para chorar!
    Não sei o que é pior, ela te pedir a tela para ontem, como se fosse molezinha de pintar, ou você ir entregar, e perceber que nem havia tanta pressa assim, pois ainda estavam em obra.
    Afff...
    Achei linda sua obra, muito sutil, e esse toque do "inacabado" deu sim um ar de continuidade.
    Grande beijo!

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  6. Sueli, impagável o desfecho da sua história! Ri muito! Tão engraçado a relação das pessoas com a arte. Tem os que visitam o Coliseu e saem de lá dizendo "mas tudo tão quebrado, quem poderá achar graça nesse monte de pedra?". E assim vamos tocando!
    Obrigada pela gentil colaboração no post fraternal, sua história me comoveu muito! Um beijo muito especial, Deia.

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  7. O painel está muito bonito e eu gosto muito dele assim. A tal fulana recebeu uma resposta à altura...
    Beijinhos

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  8. Suas aguarelas, são do mais belo
    que já vi....
    Os cavalos......são o topo..e o nu
    está sublime..
    O Dinheiro não dá.....percebe??
    Dá vontade de parar minhas 'borradas'.
    Mas como preciso de ocupar o tempo,
    vou-me inspirando por aqui.
    Beijo

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  9. Obrigado pelas suas palavras, mas como
    Artesão, sei as diferenças....Mas por agora, você fica com a sua e eu com a minha,...rsrsrs.
    É preciso é não parar.
    Beijo

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  10. Esqueceu a celulites mais não esqueceu sua obra o desfecho foi muito engraçado!

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  11. Sueli emprestei uma foto do seu blog para valorizar uma postagem no Baú qualquer coisa eu retiro...

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  12. Costumo dizer sempre que gosto não se discute, e mau gosto também não.
    Que história esta.
    Estou perambulando nos seus dois blogs. E volto p aprender mais...e me encantar tbm...

    abraços

    Paula

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  13. :)
    História deliciosa!

    beijo :)

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  14. Legal a sua atitude, fez a coisa justa!
    Nossa eu odeio gente esnobe que quer mostrar que sabe tudo e no fundo nao sabe nada... usam o poder para nos rebaixar, achando que dinheiro é mais valioso que sabedoria!
    Suas obras sao lndas, e eu estou admirada no seu modo de ser e pensar. Voce é muito descontraida e simples... delicioso ler o que escreve, nao cansa a gente e esse texto eu comecei a rir como se eu estivesse do seu lado te ouvindo contar!Muito legal mesmo.

    Quanto a contar direito sobre mim daria um livro, e é o que um dia pretendo fazer, escrever minha biografia, que realente seria rica de historias desastrosas, aventuras, alegrias e descobertas. Enfim muita açao, hehehe
    Sou avo sim, tenho 48anos e vim viver aqui em 99 e depois de anos consegui trazer meus filhos para perto de mim. Estavam com minha mae depois de um casamento desfeito e aqui a minha filha ainda muito jovem engravidou e nasceu Rafaela que agora tem 1ano, Eu sou louca por ela, minha filha ainda jovem teve de se transformar em mulher e assumiu esse cargo de mae muito bem. Foi o erro mais certo para nossas vidas apesar de nao estar com o pai de Rafaela ela agora conheceu uma pessoa que a ama verdadeiramente e estao juntos cuidando deste lindo ser que para mim é meu anjo!
    Eu conheci seu blog atraves do Blog de Veloso, pois ele fez um desafio sobre escrever para suas criaturinhas morceguinhos, e eu como sou uma que o desafio me da sede de vencer fiz um conto de fadas para ele e entreguei hoje, e agora vai ilustra-lo com os morceguinhos(eu fiquei feliz com o que fiz! Nossa eu fiz um conto de fada igual a muitos que tem por ai: Rapunzel, Chapeuzinho vermelho, Gato de Botas, Cinderela, rsrs e quem sabe um dia vai se tornar uma das mais Belas estorias, hehe) e assim eu vi que a ideia dele partiu porque havia lido sua historia, entao entrei para ler e gostei muito do que vi.

    Eu nao tenho muitos seguidores porque quando fiz o blog a minha intençao era somente para arquivar textos e poemas que escrevo,mas depois mudei de ideia e comecei a explorar mais este mundo dos bloguistas.
    Bjus

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  15. Sueli, estou encantada com o pouco que li no teu blog. Essa história da encomenda e o desfecho dela, é impagável. Ri e pensei muito.
    E, como fui professora grande parte da minha vida, fiquei a pensar no meu papel junto aos meus alunos ao ler o teu relato sobre a tua época em que tinhas aula de educação artística e a falta de empatia com os desenhos. Pois sim... É preciso ter, como a Emília, olhos de retrós.
    Estou encantada com o que escreves, com a tua arte. Parabéns!

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