"As cores são minha obsessão, meu divertimento e meu tormento de todos os dias" (Monet)

03/02/2011

Pretérito pra lá de perfeito...


Lendo a crônica da minha amiga Taís Luso do blog PORTO DAS CRÔNICAS sobre a infância, lembrei da minha própria infância e de como ela foi rica de simplicidades.

Não fui diferente de qualquer criança daquela época, eu brincava na rua até anoitecer, ia sozinha pra casa da minha avó que ficava em outro bairro. Ia e voltava; sem riscos, sem medos. Estou falando dos meus sete anos de idade.

O que havia de diferente na criança que eu fui era o fato de eu ser bastante observadora, mais do que qualquer criança daquela época; e muito questionadora, também. Queria saber, por exemplo, por que as formigas andavam umas atrás das outras. Por que o vento girava num redemoinho levantando as folhas secas. Por que a terra só tinha um cheiro bom quando era molhada pela chuva.

Meu pai ficava maluco com tantas perguntas, mas ele sempre acabava encontrando uma mentirinha que me satisfazia. Minha mãe era mais esperta, ela me dizia: "As coisas são assim porque Deus achou bom assim".

E eu aceitava a resposta, afinal Deus era Deus, e quem era eu para exigir maiores explicações?

Guardo comigo muitas lembranças boas da minha infância: os amiguinhos, a primeira professorinha, os passeios em família... Mas as coisas que vi e senti, principalmente os cheiros e os sons... Ah! essas são as melhores lembranças que eu tenho. Ainda sou observadora, sinto os mesmos cheiros e ouço os mesmos sons, mas hoje é diferente. Hoje conheço todas as respostas que eu necessito, e a procura era danada de boa! Hoje restou a saudade, e foi por ela que escrevi há muito tempo esse poeminha simples, como foi a minha infância:

PRETÉRITO MAIS-QUE-PERFEITO

Minha infância tem roupa secando no varal.
A esperança quarando no quintal.

Minha infância tem o brilho da relva molhada
Pelo beijo do orvalho
Nas manhãs de primavera.

Minha infância tem barulho de tempestade,
Tem garoa fina que não penetra,
Tem enxurrada na calçada.

Minha infância tem noite de vagalume,
A criançada na rua,
O pique, pega-pega...
A irrelevância dos dias.

Minha infância tem borboletas dançantes,
Pássaros poetas,
O canto das pererecas,
Joaninhas vestidas pra festa.

Minha infância tem cheiro de tangerina.
Tem gosto de marmelada.
Tem uma goiabeira teimosa
Que só produzia sonhos.

Minha infância não adolesceu;
Permaneceu menina presa ao passado.
E eu?... Pobre de mim!
Que me perdi pelo futuro.
E não encontro o caminho de volta.

20 comentários:

  1. Ah... querida amiga!

    Que maravilha de poema. Viajei nele, me identifiquei com ele...
    Me emocionei... Chorei!!

    Obrigada por compartilhar.

    Um grande abraço, poetiza... Artista... Filósofa...Gente!

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  2. Su:

    Começando lá por baixo, na poesia singela da sua infância, que lindinha!

    Também sinto cheiros, um é específico e não sei dizer de que é, mas sentia na infância. Hoje, comparando nossos brinquedos, nossa liberdade que não se compara às crianças de hoje – que são enclausuradas numa vida informatizada, se afastando um pouco da vida social -, vejo como fomos felizes.

    Esse cheiro de terra molhada pela chuva, nossas idas e vindas sozinhas para o colégio ou dormir na casa das amigas... Tudo tinha um sabor diferente, como comidinha de 'fogão à lenha'. Sabe, Su, tudo tem um preço, e esta geração, infelizmente, vai pagar um preço por não ter infância, uma das etapas fundamentais para nosso crescimento, para o entendimento de certas coisas. Estamos desrespeitando a natureza, o curso normal das coisas.

    Infelizmente é esse o rumo e não tem volta; os que são de nossa geração sabem o que é pé no chão, banho de chuva, boneca, árvores, caminhão de madeira, duas latinhas com fio (telefone)... E nós sabemos o ontem e o hoje.

    E falando em pintura... LINDA!

    Beijão, amiga, você escreveu coisas bem significativas.
    Tais luso

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  3. Oi amiga linda que nao é outra!
    Obrigada por ter ido ao meu blog para dar carinho! Adorei!

    Agora falando de tudo aqui... Que lindo poema!
    Lindo demais e me fez lembrar a minha infancia, pois vivi em uma cidade do interior de Minas e ali eu vivia tudo isto!
    Voce me levou para o meu passado te juro!
    O pe de goiaba de minha casa também era daqueles que quando ia para colher uma goiaba, so via bicho dentro dela, rsrsrs
    Ao caminhar para casa de minha avo quando chovia, eu pisava na agua da beira da calçada, e minha mae ficava nervosa comigo... Dizia que a agua portava doença, mas era tao bom andar pisando nela!

    E a tela? Nossa que ideia magnifica esta que voce teve de pintar um varal e as roupas a movimentar com o vento. Ficou maravilhoso!
    Voce tem um talento enorme e te admiro demais!
    Beijos

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  4. Amei essa frase do pintor Monet. Esse sentimento sobre as cores, sempre fizeram parte de mim.

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  5. Gostei ...muito do poema....mas gostava
    imenso, de saber trabalhar a espátula..
    Que bela pintura...
    Beijo

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  6. Essa tela do varal é linda, menina... Pintar com espátula é só para quem tem muito talento mesmo!

    Um grande abraço.

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  7. Sueli, sua infância me ajuda a entender um pouco esta multiplicidade de talentos que se instalou na mulher que é hoje. Uma grande escritora , poeta e artista plástica de encantar a todos com a sua inquitude criativa sempre. Meu abraço. paz e bem.

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  8. Ahhh olha só, hj foi o papo do dia vindo para o trabalho, meu vizinho pega carona comigo, então comecei com ele algumas coisas que eu observava qdo era criança e saia com meus pais, em um dos caminhos, eu passava perto de uma estação da eletropaulo, e via vários postes e fios, e nestes fios eles colocavam "bolinhas coloridas", acho que para não se esquecerem que os fios estavam lá, e eu adorava ver as bolinhas coloridas, esses dias me lembrei e procurei por elas, elas ainda estão lá, mas cor que é bom, nem pensar mais... o tempo se encarregou de tirar tudo!! Outra coisa que lembrei, foi a estatua do borba-gato, não sei se vc conhece?!(joga no google)...rs.... Eu sempre me referia a estatua como "o vovô", pq meu avô usava chapeu, e a estatua tbém, entao eu achava que era a estatua do meu avô, ficou a lembrança, toda vez que passo por lá, me lembro do meu avô, à tantos anos falecidos.. ahhh... doces lembranças.... bjos,

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  9. Suuuu! Vamos começar do começo? Que quadro é esse? Coisa mais linda!! Quanto à sua infância, em prosa e verso foi possível entrar na máquina dourada do tempo e ser espectadora das suas meninices! Goiabeira que deu sonhos! Borboletas dançantes! Muito delicado, sempre! Beijos da admiradora, Deia!

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  10. Sueli,
    A poeta ( ou poetiza ) sensível, professora competentíssima e pintora cada dia mais pintora!
    Adorei o quadro, eu queria ter pintado esse quadro, genial.
    Você já notou como temas simples revelam a boa pintura.
    Te admiro muito!
    Um abraço

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  11. VIAJAMOS no tempo com escritos como o teu. Parabéns.

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  12. Su, querida, o Antonio disse tudo que eu gostaria de dizer! Você tem a capacidade de tornar as coisas mais simples, de pegar o nosso cotidiano e retratar maravilhosamente.

    Esse varal, que todos temos, de um jeito ou de outro, você nos transporta aos tempos mais antigos como aos tempos atuais. Você retrata a simplicidade de nossas vidas, que realmente é o que vale.

    Volte logo, amiga!
    beijão.

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  13. Maravilhada com suas roupas no varal lembrei-me de um episódio de minha vida escolar em que, sem saber desenhar, fiz um desenho livre mostrando exatamente essa cena: roupas no varal de uma casinha rural. E, fui considerada extrremamente criativa... Um belo texto:

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  14. A nossa alegria supera nossa tristeza, nosso consolo supera nossa dor, nossa fé supera nossa dúvida, nossa esperança supera nosso desespero, nosso entusiasmo supera nosso desânimo, nosso sucesso supera nosso fracasso, nossa coragem supera nosso medo, nossa força supera nossa fraqueza, nossa perseverança supera nossa inconstância, nossa paz supera nossa guerra, nossa luz supera nossa escuridão, nossa voz supera nosso silêncio, nossa paciência supera nossa impaciência, nosso descanso supera nosso cansaço, nosso conhecimento supera nossa ignorância, nossa sabedoria supera nossa tolice, nossa vitória supera nossa derrota, nossa ação supera nosso tédio, nosso ganho supera nossa perda, nossa resistência supera nossa fragilidade, nosso sorriso supera nosso choro, nossa gratidão supera nossa ingradidão, nossa riqueza supera nossa pobreza, nosso sonho supera nossa realidade... Nosso amor a Deus, ao próximo, à vida, nos faz superar tudo! (Pr. Edilson Ram)Uma semana de vitórias Deus é com tigo creia! TENHO UM BLOG GOSTARIA DE TI CONVIDAR SEGUIR O ENDEREÇO É:http://SNSDEUS.BLOGSPOTFICA COM NOSSO PAPAI já estou te seguindo te encontrei através de uma amiga,post teu comentario vai ser uma benção prs seguidores e visitantes uma semana com muita sorte de benção!!!

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  15. Essa do varal é de muita sensibilidade poética. Sua infância, nem pensar. Que pintura!Eu me vejo muito no que você descreve.

    Abraços
    Isaías

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  16. Lendo teu poema,voltei á minha requintada infância,sim,requintada porque dessa simplicidade não se faz mais a vida rica de uma criança,o cheiro da tangerina,aquela goiabeira que demorava para deixar suas goiabas amadurecerem,mas era o nosso tempo psicológico voava na frente do cronológico,não para sermos mocinhas antes do tempo,mas sim para saborear uma goiaba...Eu tenho um Conto que fiz anos atrás que se chama"As Goiabas Brancas",o fiz em homenagem ao meus saudoso pai que as trazia no bolso á tarde,e elas tinham um gosto singular...Querida,sei que neste momento O Grande está te guiando e tua filha,logo,logo,vai estar esbanjando saúde e você voltando a escrever poemas lindos como esse.
    Um grande abraço!

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  17. É impressionante como tua sensibilidade retratou coisas dormidas em minha memória.
    A goiabeira teimosa que insistia em demorar em amadurecer suas goiabas...
    Era isso mesmo!
    Porque, todos os dias, ou várias vezes por dia, íamos verificar...
    Que bênção!
    Que maravilha!
    Parabéns poetisa!

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  18. Lindo poema...Que saudades da minha infância. Descobri seus blogs por acaso, e como gosto também de escrever fui logo "abduzido" pelo seu jeito simples, leve e mágico de nos transportar com seus textos. Parabéns.
    Crônicas e Poesias www.alberto.moura.zip.net

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  19. poeminha?!Uma pérola,isto sim!abçs

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  20. Su...minha amiga amada!
    Cá estou no presente, mas feliz da vida, porque tive a oportunidade de viver ao menos um pouco esse seu passado, ou melhor...o nosso!
    Salta-me a lembrança de nossas deliciosas gargalhadas, nossa amizade e cumplicidade.
    Bendita tecnologia que nos reaproximou!
    Li e reli cada artigo de seu blog e pude entender o que a vida fez a você.
    Aquela menina carismática se tornou guerreira, exercitou seus dons e como você diz: "Subiu ao palco".
    O ontem nos fez futuro e nele posso afirmar:
    Que orgulho de você, minha amada amiga!
    Bjs
    Clélia

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