"As cores são minha obsessão, meu divertimento e meu tormento de todos os dias" (Monet)

15/09/2012

Os verdes da natureza


(Estudo de verdes. Clique na foto)

Muitos acreditam que as cores da pele humana são as mais difíceis de reproduzir, até tentarem copiar os verdes da natureza.

O verde é o que predomina numa paisagem, portanto, dominar essa cor é quase uma religião para muitos pintores. Mas não basta dominar o verde e suas ‘ilhares’ de nuances, havemos de entendê-lo para aproveitarmos ao máximo o seu uso.

Já falei aqui no blog sobre o meu caso de amor e ódio com essa cor – que quase acabou em divórcio, mas... andamos ultimamente em pleno processo de reconciliação... Voilà! rs.
Isso porque nem todo verde da natureza é verde. Parece uma coisa idiota a afirmar, mas é verdade. Essa cor 'pula' para outras escalas devido as influencias climáticas.

Quando comecei a pintar, passei anos perseguindo os verdes perfeitos de pintores como Batista da Costa, por exemplo. Tentava reproduzi-los, quando na verdade, deveria observá-los diretamente na natureza, nas várias horas do dia e nas 4 estações do ano – esse é o meu conselho pra você que está tentando dominar essa cor.

A maioria das folhagens dos arbustos não são exclusivamente verdes. Se olharmos para uma folha isolada, a cor inicial que vemos é o verde, mas, se vamos retratá-lo numa pintura seria desastroso pintá-lo inteiramente de verde. Um exame mais acurado revelará outras cores – cinzas e amarelos frios no arbusto e cinzas azulados e arroxeados nas árvores ao fundo – que naturalmente iremos incluir.

É importante saber que os verdes podem ser quentes ou frios, mesmo pertencendo à ‘família’ de cores frias no disco cromático. E todo verde se torna mais frio quando entra na sombra. Diante disso, como saber qual verde usar? A resposta está no tipo de fonte de luz. Num dia ensolarado de primavera/verão, por exemplo, uma árvore nos parecerá inteira banhada de luz com tonalidade ocre. Porém, se olharmos mais atentamente, veremos que o lado iluminado da árvore será de um verde quente e brilhante. Eu diria um verde bem próximo do amarelo. As sombras mais profundas tendem para os avermelhados, a cor complementar (inversa) do verde. No outono/inverno todas as cores são mais cinzentas e frias. Mesmo que haja sol, as folhagens voltadas para a luz assumem um verde frio, embora mais claro que o resto. As sombras são igualmente frias e devem levar mais azul na mistura.

Outro erro que eu cometia era comprar tubos de verdes prontos. Acumulei uns ‘trocentos’, presumindo que estava bem equipada para pintar a selva amazônica inteira! Tolo engano que 11 entre 10 principiantes cometem. O verde é uma daquelas cores que devem ser produzidas com a mistura de outras cores, mas que vai além do óbvio azul + amarelo.

A grande vantagem de preparar os verdes – ao invés de adquirir os tubos prontos – é que com as cores da paleta básica conseguimos uma infindável variedade de verdes de forma bastante econômica. E o que é melhor, podemos controlar o tom e a intensidade desejados. 

Produzo os meus verdes com Azul Ftalocianina, Azul Ultramarino, Amarelos de cádmio, Vermelho de Cádmio, Alizarim, Branco de Titânio e Negro de Marfim. Começo produzindo um verde com amarelo + azul. Se quero um verde quente uso o Ultramar, se frio, o Ftalocianina. Daí pra frente, ‘queimo’ e escureço com os vermelhos, ou esquento e aclaro com + amarelo e branco, e assim por diante.

Mas, é óbvio que não é tão simples assim, há muito mais coisas envolvidas que descobrirá com o tempo: com experimentos e muitos erros. Mas o acerto vem, isso posso-lhes garantir.  

Para clarear um verde não basta simplesmente acrescentar-lhe branco, pois esse, assim como o preto, atua como cor fria numa mistura. Para diminuir essa frieza, acrescente amarelo ao branco. O mesmo acontece quando desejamos escurecer um verde: não basta acrescentar-lhe o preto. Invariavelmente leva um pouco do vermelho junto.

Uma dica que funciona muito bem é substituir os azuis pelo preto quando se deseja verdes frios, porém, sem perder a ‘identidade’. Negro de Marfim + Amarelo de Cádmio Claro produzem excelentes verdes, que podem ser ‘queimados’ com um ‘bocadinho’ de vermelho quando entram na sombra. Acrescente ‘um toque’ de branco para acinzentar quando for retratar vegetações distantes. Essas combinações são excelentes para retratar paisagens bucólicas de um dia nublado de inverno.

Fique atento à quantidade de cor que adicionará à outra cor para não perder o controle do tom. É difícil pra eu descrevê-la aqui, mas deixo umas dicas importantes: comece sempre com o amarelo e vá acrescentado nele outras cores, aos pouquinhos. Utilize uma paleta branca para fazer as misturas. Por último, faça amostras de todos os verdes possíveis e use-as como referencia quando for retratar os verdes da natureza.

... Agora... só falta eu abrir um champagne e comemorar!! Nunca pensei que postaria aqui um tutorial sobre o verde, a cor maldita que me roubou noites e noites de sono... uau!!!!

26 comentários:

  1. Oi Sueli, sempre passo por aqui, vou falar a verdade; a procura de conhecimentos novos. Será que minha amiga (desculpe a ousadia “amiga”) já tem alguma novidade postada?
    Que delícia, sensacional essa sua colocação, todo esse aprendizado, ensinamentos sobre o verde! !!
    Obrigada, um ótimo final de semana
    Bjos

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    1. Querida amiga! (amiga, sim, e por que não?)

      Um ótimo final de semana pra vc tbm! Espero que aproveite a postagem de hoje e me desculpe pela demora em postar novas matérias. Além de estar sempre, totalmente, completamente enrolada (rsrs), ainda estava com problemas ‘técnicos’ no blog.

      Obrigada pelo prestigio e pelo carinho de sempre!

      Um mega beijo.
      sg

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  2. Perfeito, Su! Como você é didática, maravilha.
    Olhando essa sua pintura, num zoom, percebe-se o tanto de verdes e misturas feitas para conseguir as tonalidades não compradas feitas, entregue em série.

    E como não poderia deixar, veio à minha mente Monet! Pintou a natureza, a Catedral de Rouen, ou o Parlamento de Londres em horas diferentes para captar nada mais do que as 'nuances' de um dia em mutação. E pintava rápido para que não fugissem... Queria captar todas as nuances oferecidas no momento, a luz, a sombra. Enfim, tudo que estava sofrendo a influência do sol.
    Por isso essa sua briga com seus inúmeros verdes da natureza que a cada momento se transforma.

    Essa sua pintura mostra o tanto de sol, as sombras, os claros. A iluminação vem lá do fundo, pois já há sombra do lado de cá da montanha. Muita dinamismo no seus verdes. E o caso das folhas... muito interessante, há nela vários verdes e outros tons, nada é chapado! Ótimo exemplo, tanto quanto o clarear e escurecer, não basta tocar um preto... Ou um branco.
    Creio, que a briga dos pintores é conseguir captar essas mudanças constantes; para Monet foi a sua maior obsessão. Insistia nas 'impressões'.

    Como sempre, sua aula foi por demais oportuna e muito clara. Pra mim não é novidade, perfeccionista como você é...
    Grande beijo, querida amiga!
    Tais

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    1. Amiga!

      Muito oportuno vc citar Monet. A vida toda ele procurou retratar a impressão da luz em suas cenas – aqueles momentos mágicos e fugazes que desaparecem em questão de minutos. De fato ele foi um pesquisador incansável da luz.

      Vc, melhor que ninguém, sabe que ele foi meu mentor, meu mestre e minha inspiração. De certa forma foi através dele que comecei a pintar. Porém, sua ‘base’ de cores não servia pra mim, visto ele viver na Europa e eu num país tropical. Mas foi com Monet que passei a me interessar pelo estudo das cores sob a influencia da luz.

      Obrigada amiga! Seus comentários sempre me deixam muito feliz. Eles não só complementam, mas enriquecem as minhas postagens!

      Bjobjobjo!
      sg

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  3. Como sempre o vosso aconselhamento é primordial nunca vi ninguém como a senhora a ensinar técnicas de pintura e cor tão explicitos. Este ensinamento do "verde" é espectacular. Obrigada Sueli por todo o seu saber que nos transmite com tanta trnaparência e sabedoria. Bem haja. Margarida Branco

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    1. Ah, minha amiga Margarida Branco, sempre me prestigiando, seja aqui ou lá no Face... Vc sempre consegue me emocionar, é minha motivação a continuar. Eu é que te agradeço querida amiga por se fazer presente desde que criei o blog.

      Um beijo, todo meu carinho!
      sg

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  4. Adorei a tela...Mesmo a meu
    gosto. A sua lição cansou-me.....É 'muita areia para a minha camioneta' hihihihi.
    é de facto um quebra cabeças
    Creio que fiquei mais desmotivado ainda....'Burro
    velho, não aprende línguas'-
    Gostei do que escreveu a Tais.
    Beijo

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  5. Sua arte é sempre linda de se admirar
    aliado a sua forma simples e gostosa de escrever parabens sempre menina!

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  6. Olá Sueli,
    parabéns pela brilhante aula sobre verdes. Perfeita!
    Gosto muito de usar as misturas que você aconselha, quase todas, pois algumas são inéditas!
    Um grande abraço

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  7. Olá, parabéns pelo blog!
    Se você puder visite este blog:
    http://morgannascimento.blogspot.com.br/
    Obrigado pela atenção

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  8. Olá Sueli,
    Fiquei feliz, sem dúvida, com sua visita, como disse no seu outro blog, mas jamais imaginaria que ficaria ainda mais, por ter a oportunidade de conhecer um blog de uma artista dessa grandeza! Estou embevecido, enebriado com sua arte! É de encantar o que vejo aqui! Suas pinturas são magníficas, esplendorosamente belas... Além do que, tens posts didáticos elogiáveis e dignos de louvor. Parabéns por suas virtudes...

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  9. Oi Sueli eu é que me sinto muito feliz por ter encontrado este seu espaço.Sei que vou aprender muito.Eu adoro pintura, sou um pouco frustrada pois não consegui fazer nenhuma escola de arte e para somar, ainda sou bastante alérgica à tinta à óleo(minha paixão)Mesmo assim, não desisto e insisto,acredite, só posso usar tinta acrílicas a base de água,como aquelas próprias para tecido.Aquarela etc. Tenho algumas telas e até fiz uma exposição coletiva para iniciantes com a grandiosa ajuda de uma amiga, a artista plástica Neli Indig,mas todo o pouco que sei, aprendi com a
    busca em livros e agora pela Internet. Assim fico encantada quando encontro blogs como o seu que divide com a gente tanto conhecimento e beleza. Vou ficar por aqui e te agradeço muito.
    Perdoe se me estendi, é que meu coração vibra por arte e suas expressões.
    Um grande abraço.
    Tenha um lindo final de semana.

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    1. Lourdinha, querida!
      Obrigada pelo seu prestígio. Não me peça perdão por 'ter se estendido'. Primeiro porque adorei o seu comentário, segundo porque esse espaço é de vcs. Esse blog é inteiramente dedicado aos leitores, que como vc, são apaixonados por arte. Sinta-se a vontade para comentar, deitar e rolar...rs

      Bjo grande amiga!
      sg

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  10. Sueli,mesmo sem saber colocar o pincel na tinta fiquei maravilhada com a sua explicação sobre as cores.Assisti, certa vez a um filme (não recordo o nome),no qual o artista plástico perguntava ao garoto quais as cores que ele enxergava no céu.O garoto respondeu:-vejo só o branco do firmamento.
    Aí,seguiu-se uma aula como a que você nos presenteou.Além de cores, o conhecimento.Um grande abraço!

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    1. Nossa, Marli, fiquei super curiosa agora para saber desse filme rsrs. Deve ser bem interessante!

      Obrigada querida, sempre bem vinda aqui! Quem sabe não comece a pintar... hein?... Vou adorar, sem dúvidas!

      Bjo grande.
      sg

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  11. Gostei da aula da pintura! Começo por dizer que a tela está bonita com os "verdes" que eu tanto gosto. Ignorava que fossem tão difíceis de pintar...verde é verde e pronto!
    Olhando a natureza do meu jardim e quintal, reparo que tens razão: Há muitas tonalidades de verde!
    Sucesso para ti e a continuação dessa arte de saber misturar as cores.
    Beijocas e boa semana.
    Graça

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  12. Sueli,que postagem interessante e ficou divertida pela sua espontaneidade!Lindo o quadro que pintou e o verde ficou perfeito,na medida certa!Obrigada pelo seu gentil comentario em meu blog !Bjs e boa semana!

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  13. Sueli e Marli existem dois filmes; um é “o mestre da vida” esse está completo no You Tube o outro é sobre um menino pobre que conhece um grande mestre que vendo o talento deste menino resolve ajudá-lo, porém há mistério revelado no final, não vou dizer é claro!... Também não sei o nome deste.
    Bjos

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  14. Dalva querida! Obrigada pela informação. Vou procura pelo filme, adoro filmes sobre pintores. Esse me passou, não me lembro de ter assistido.

    Bjo grande amiga!

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    1. Oi amiga!
      O mestre da vida é muito bom! Assisti uma vez na Sky, procurei no You Tube e encontrei o filme completo duração de 1.47h. Como também amo tudo relacionado à arte, vejo sempre.
      Bjos

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  15. Olá Sueli,bom dia!
    Vim para me deleitar com suas magníficas postagens, e aproveito pra lhe deixar, além do meu abraço, os votos de um final de semana esplendoroso.
    Sejas feliz e até mais!

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  16. Texto delicioso, como é bom retratar as coisas da natureza e voce poeta descreve tudo com muita clareza e leveza. Gostei de vir aqui. Parabéns!

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  17. Que maravilha!
    Eu sempre fui fascinada por paisagens,e na minha concepção,as árvores são elementos extremamente fotogênicos e quando viajava,ou viajo por rodovias,fico extasiada olhando tudo isso que acaba de verbalizar...Que aula maravilhosa mestra!
    Beijão!
    Izildinha

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  18. Vc não pode imaginar a minha felicidade por ler esse texto!
    Tenho uma admiração incondicional pelos verdes e um ódio na mesma intensidade...rs
    Nunca tinha encontrado alguém com essa mesma relação "ambivalente" com o bendito (ou maldito)...rs
    Obrigada por compartilhar suas experiências!
    Beijos

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  19. obrigado..muito bom essas digas...

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Sueli Gallacci